Expedições Acauã 2007 – Jalapão

 

Eram pouco mais de cinco da tarde e já com uma noite à espreita, quando o Niva caiu na poça funda nos ‘areiões dos Jalapões’. Nem o socorro especializado deu jeito. Era tarde demais. Mantido ativo no afã de vencer o barro, o motor engoliu água e, dali, só rebocado. Dois estepes, uma bateria extra, pá, enxadão e nada menos que 70 litros excedentes de combustível… Nem toda a providência livrou a equipe ‘Expedições Acauã’ da água até o nível do câmbio e um diferencial colado no chão…

Dois caminhos e duas épocas diferentes no ano, fazem a história de também dois “Jalapões”. E bem diferentes. Talvez por essas características, alguns nativos insistam em chamar o Jalapão de ‘Jalapões’, um plural matreiro, mas respeitador. De quem conhece tudo dali.

A ‘Expedições Acauã’, equipe formada por um grupo de profissionais da comunicação de Ribeirão Preto, resolveu – no carnaval desse ano – conhecer a capital mundial do Capim Dourado do jeito que o matuto vive, ou seja, de modo bruto, pelo pior caminho e, na pior época, de muita chuva. Para se ter uma idéia do que isso significa, até a experiente equipe do Rally dos Sertões só enfrenta a região no período da estiagem. Imagine então o leitor, o tamanho da aventura. Para quem saiu do asfalto das pistas duplas – e dos pedágios – em busca de novas emoções, foi um prato cheio. Estradas desertas, rios com quase um metro de água para se atravessar foram apenas algumas das emoções. Aos assustados, porém, é importante lembrar que mesmo nas estradas mais remotas, não faltaram botecos cobertos de sapé com cerveja gelada.

Localizado no Leste de Tocantins, a região do Jalapão é considerada – mesmo pelos mais experientes aventureiros – uma das mais inóspitas do País. Também chamado de “deserto do Jalapão” por conta de um dos mais baixos índices geográficos do Brasil (menos de um habitante por km2), a região é rica em belezas naturais pouco exploradas e, portanto, muito atraentes.

Belezas naturais

O caminho para os Jalapão já é uma aventura. O cerrado brasileiro é uma paisagem muito parecida por quilômetros de distância. Nunca igual, porém. Principalmente por conta da fauna. Emas, Falcões, Araras e tantos outros bichos dão, da própria estrada, a verdadeira noção do que é um bom pedaço de natureza preservada.

Mas as belezas naturais da flora – únicas – são o que fazem do Jalapão, uma região que merece ser visitada e que vai se tornar, em breve, um dos maiores destinos do eco turismo brasileiro. Dentre esses destinos, são imperdíveis as Dunas (em cujo caminho a equipe Acauã esmoreceu), o Fervedouro e as cachoeiras da Velha e da Formiga, além da Pedra Furada, localizada no município de Ponte Alta.

Pedra furada

Do alto da pedra furada, os confins dos Tocantins parecem não ter fim

Ponte Alta é a porta de entrada do Jalapão. Atualmente a mídia está focada nas atrações localizadas no município de Mateiros, mas Ponte Alta, local em que ‘aportamos’ com a equipe ‘Expedições Acauã’, além de uma melhor estrutura enquanto cidade (posto de combustível, pousadas e restaurantes) possui pelo menos uma atração que pode ser classificada como ‘imperdível’: a ‘Pedra Furada’, localizada a 25 km da cidade, em sentido contrário a Mateiros e sem custo para o turista. A beleza da enorme rocha com o óbvio detalhe subjuga o turista. Remete-o a uma análise profunda sobre como o poder da natureza, amparado pelo ‘colo’ do tempo, pode influenciar de modo cirúrgico um reino tão bruto quanto o mineral. Do alto da pedra furada, os confins dos Tocantins parecem não ter fim. Tudo é vasto e a vegetação rasteira do cerrado horizontaliza, inclusive, paradigmas.

Ainda em Ponte Alta, vários pontos em montanhas fazem a alegria dos turistas em noites calmas e sem chuva, para contemplação da lua num horizonte sem fim. Se à luz do sol o centro-oeste brasileiro é místico por si; ao cair da noite dir-se-ia que é simplesmente mágico.

Cachoeira da Velha

Localizada a 70 km de Ponte Alta e já no município de Mateiros, a Cachoeira da Velha é outro desses destinos imperdíveis do Jalapão. Fica na rota das outras atrações da região, por isso ao turista, é bom seguir essa ‘ordem’ na hora de elaborar seu roteiro. Como a maioria dos destinos turísticos do Jalapão, a cachoeira da Velha está dentro do que era uma propriedade privada. Neste caso, há controvérsias. A área onde fica a cachoeira foi adquirida por gringos – “empresários” portugueses que, num passado não muito distante, perderam a posse por utilizá-la como ponto para o narcotráfico. Atualmente sob o controle do Estado, o direito de uso é confuso e alguns figurões (principalmente do Judiciário) costumam passar seus finais de semana na sede da fazenda. A ‘vantagem’ para o visitante é que a taxa de R$ 5,00 não está sendo cobrada.

A cachoeira da Velha é a principal da região do Jalapão. É a maior em tamanho e volume de água. No seu ponto principal, é impossível tomar um banho, mas, a menos de um quilômetro rio abaixo, a chamada praia abriga uma excelente estrutura para banhos e para se curtir o sol. A correnteza é forte apenas no leito do rio. Uma margem com uns 20 metros de extensão faz a alegria do turista além de uma considerável praia de areia fina. Um funcionário da fazenda – acredita-se por pequena gorjeta – carrega mesas e cadeiras, improvisa traia de pesca e até um churrasquinho. (Pelo menos foi o que os figurões tiveram aos nossos olhos). A herança do Euro fácil deixou local para estacionamento, caminho para a praia e até banheiros… O visitante nunca imaginaria encontrar uma estrutura tão completa num ponto tão – geograficamente – inóspito do País.

Cachoeira da Formiga

À primeira vista, a Cachoeira da Formiga pode parecer modesta, principalmente depois que o turista conheceu a Cachoeira da Velha. Aos poucos, porém, os detalhes vão surgindo e o que se vê na cachoeira da Formiga é a incrível sutileza das águas bravias escorregando num plano de azul turquesa. É um curto trajeto. A nascente da cachoeira da Formiga fica a pouco menos de 2 km do seu ponto auge e é incrível imaginar o quão forte é essa nascente a ponto de, em tão curta distância provocar tamanha fúria. O custo da visita é de R$ 5,00, por pessoa pago ao atual proprietário da área. Um dono temporário. Toda a região do Jalapão virou parque estadual por força de lei, mas os tradicionais proprietários ali ainda se mantém porque sequer têm noção do valor da indenização e, óbvio, ainda nada receberam do que têm (?) de direito. Solução ou não, o Jalapão vai se tornar mais um parque. Sorte se tiver destino diferente de outras áreas que o Estado ou União normalmente fingem que administram.

Dunas também justificam ‘fama’ de deserto

A visão desértica das Dunas é uma das poucas sensações que nos remetem ao estereótipo de ‘deserto’ no Jalapão. Um pequeno rio de águas cristalinas margeia as Dunas e forma, juntamente com as enormes formações rochosas, um complexo natural variado e único. Ao entardecer, a vista fica abrilhantada com a luz do sol deitada sobre a areia, reproduzindo aquele tom dourado de ‘sua excelência’, o Capim. Uma das brincadeiras que os turistas mais curtem é rolar do alto das Dunas direto pra o rio, em alturas que passam de 20 metros. É uma delícia que custa R$ 5,00 por pessoa na entrada do point e, claro, exige cuidados.

Fervedouro

O Fervedouro é outra dessas atrações únicas do Jalapão. Magro, gordo, alto ou baixo, o turista pode literalmente deitar e rolar que não vai se afundar nas águas do Fervedouro. A explicação é a pressão da água de baixo para cima, mas a verdade é que parece magia mesmo. A água é transparente no fundo de areia branca. Pequenos peixes e alevinos também vivem no local, numa área de pouco mais de 30 metros quadrados. Vale muito a pena, não apenas pela singularidade do local, como pelo prazer do banho. Ali também o turista paga R$ 5,00 por pessoa e pode comprar um artesanato de capim dourado.

Capim dourado, o embaixador do Tocantins

Capim Dourado é ‘febre’ entre os moradores; toda família tem um artesão

A comunidade de Mumbuca existe no Jalapão há quase 60 anos. Atualmente cerca de 50 famílias vivem na comunidade, distante 34 km de Mateiros. No quilombola da Mumbuca vive Guilhermina Ribeiro da Silva, a Dona Miúda, a mais antiga moradora do local e considerada a ‘mãe’ do capim dourado. Ela é conhecida mundialmente e já recebeu muitas homenagens, embora ainda lute mesmo por um pouco mais de conforto pessoal. O capim dourado é um embaixador do Tocantins e já é exportado para a Europa e América do Norte. O Estado já requereu, inclusive, uma patente: “Capim Dourado Mumbuca”. Mas os artesãos do capim dourado já se espalham por toda a região. Na cidade de Mateiros uma associação, atualmente presidida por Maria Julia Dias dos Santos reúne nada menos que 160 artesãos e tem o apoio do Banco Mundial.

Em Ribeirão Preto, também se encontra o artesanato do capim dourado num contraste interessante: lojas finas do Boulevard e no mercado municipal. A diferença de preço para um mesmo produto é óbvia.

Mas capim dourado é tradição. Fez e faz escola. Dentro da comunidade foi criada uma associação e, uma loja, representa financeiramente o interesse de todas as famílias.

Mas, como em tudo na vida, o capim dourado já clama por proteção. A coleta, antes meramente extrativista agora está sob orientação de programas de manejo. É uma interferência necessária para que a cultura resista à amplitude dos novos mercados.

“Jalapões tem que queimás”

Cultura forte vence barreiras naturais e da política no Brasil Central

Assim como os norte-americanos descobriram que o pequeno espaço de chão que abriga as centenárias sequóias precisa do fogo, o matuto do Tocantins também percebeu que “os jalapões têm que queimás”. Óbvio que, atualmente, um fogo controlado de forma técnica por profissionais como da equipe do Instituto Natureza do Tocantins – Naturatins, órgão mantido pelo Governo do Estado.

Mas esse processo, o matuto Tomé Rodrigo dos Santos, um dos mais conhecidos da região, há muito já dizia, com sua incontestável sabedoria ‘pé no chão’: “Jalapões tem que queimás”.

… O mesmo Jalapão, onde a equipe Acauã patinou, encalhou, escavou, sofreu mas não se intimidou. Foi premiada. Segundo os moradores, as chuvas deste carnaval foram as maiores dos últimos três anos. Guardadas então as devidas proporções, a aventura Acauã não foi diferente da própria história do Tocantins. Transformada em Estado há pouco menos de 20 anos, a região, às vezes titubeia ao costurar sua rica história à nova condição federativa, mas nunca esmorece. Políticos fracos ou mal intencionados judiam de seus governados por incompetência ou maldade, mas quando à tardezinha, cansados, nos entregamos, à lembrança da canção-hino do pequeno quilombola sobre seu capim dourado, não dá pra esquecer que a saga do caboclo é bem maior que tudo isso. Os problemas são crônicos, mas o mercado globalizado não deixa dúvidas de que, agora, ao menos, o capim dourado tem preço, porque sua gente acabou de descobrir seu valor.

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