Expedições Acauã 2008 – Foz do Iguaçu-Missiones

Com os olhos ainda cheios de lembranças do cerrado, o grupo de profissionais da comunicação de Ribeirão que forma a ‘Expedições Acauã’ – no qual se inclui este que esta escreve – decidiu ver novas paisagens, formações e sotaques, e rumou este ano para o sul do Continente. Durante o Carnaval 2008, no primeiro roteiro internacional do grupo formado há três anos, visitamos Foz do Iguaçu, Argentina, Paraguai, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
A bordo de um valente Niva, afinal a aventura não é só o fim, mas o meio também, percorremos cerca de 4.500 km, descobrindo visuais, sabores e sensações variadas e surpreendentes.
Esta reportagem tem, portanto, a difícil tarefa tentar passar algumas das muitas aventuras vividas nesse roteiro que se mostrou muito mais surpreendente do que previa seu já otimista planejamento.

Foz do Iguaçu

A cidade é cheia de atrações, por conta disso desembarcam turistas do mundo todo. Para se ter uma idéia, somente no Parque Nacional de Foz do Iguaçu foram quase 90 mil visitantes no mês de fevereiro.

A Pedra que canta

Os indígenas da região conheciam uma pedra diferente das demais, quando tocada pela água emitia um som que parecia o de um canto. Pedra que canta é Itaipu em Guarani, e nesse local foi construída a Usina Hidrelétrica de Itaipu, única empresa binacional do mundo, e responsável pela geração de 20% da energia consumida no Brasil e 92% da paraguaia.
Maior usina do mundo em geração de energia Itaipu é uma obra grandiosa, que deve fazer parte do roteiro de visita em Foz. Observar seus vertedouros (mesmo quando secos), sua altura e seu interior nos fazem entender porque essa obra está entre as maravilhas da engenharia de todo o mundo.
Uma visita monitorada pelas instalações apresenta dados impressionantes das dimensões da hidrelétrica e da importância dela na economia dos dois países e como impulsionou a economia da região.
Sua estrutura de visitação turística é exemplar, sendo possível diferentes tipos de passeios – inclusive na parte interna – e visita ao ecomuseu, aliás, Itaipu, consciente da importância da preservação ambiental para seu próprio negócio, vem implementando diversos programas conservacionistas internos e para toda a comunidade que vive em todos os afluentes.
Internamente chama a atenção o projeto da piracema. Foram aproveitados 6 km de rios internos e construídos mais 4 km de escadas para que os peixes possam vencer a barreira de concreto construída e fazer a desova acima da barragem.
O canal da piracema possibilitou uma grande mistura de espécies no gigantesco lago de Itaipu e, segundo os biólogos da binacional, cerca de 130 das 180 diferentes espécies de peixes lá existentes já utilizaram o canal.

Água grande

Em tupi, Iguaçu é água grande, e é exatamente essa sensação que se tem ao deparar-se com as gigantescas cataratas do Parque Nacional de Iguaçu.
Deve ter sido esse sentimento de grandiosidade que motivou um visitante visionário a, em 1916, escrever uma carta para o governador Frederico Engel clamando pela desapropriação da fazenda, argumentando que “estas maravilhas em torno das cataratas não podem continuar a pertencer a um particular”. Os argumentos deram resultado o local tornou-se público, e uma estátua foi erguida dentro do parque em homenagem a Santos Dumont, o autor da carta.
Dentro do Parque Nacional de Iguaçu existem 10 variações de passeios. É possível passar três dias inteiros em atividades, como caminhadas, passeios de barcos, esportes radicais e até mesmo um lual nas cataratas, nas noites de lua cheia.
O roteiro clássico é o passeio pelas trilhas das cataratas. São 1.600 metros de trilhas privilegiadas das quedas de águas e diversas paradas obrigatórias em mirantes para contemplação desse espetáculo da natureza. O prêmio final é um passeio pelas passarelas sobre uma cachoeira, de onde o visitante sai ensopado somente pelo vapor d’água vindo de uma das quedas próximas.
Não é à toa que em 2008 a Cataratas do Iguaçu SA, empresa que administra o parque, espera um público recorde de 1 milhão de visitantes, afinal atrações e paisagens paradisíacas não faltam aqui.
Entre os diversos passeios, um dos que proporcionam grande emoção é o do Macuco Safári. Após passeio por dentro da mata a bordo de carreta puxada por jipe elétrico e caminhada de 600 metros, o turista entra em um barco inflável e sobe o Rio Iguaçu em direção às cataratas.
Além do visual maravilhoso que já compensaria o passeio, a grande emoção é quando o bote passa por baixo de uma queda de água. E várias vezes. É um banho que lava a alma, uma sensação de interação com a natureza e do poder que ela tem, que compensa, e muito, os nada módicos R$ 150 que o turista investe.

Pela Argentina

Com os olhos repletos das mais lindas paisagens brasileiras era hora da Expedição Acauã entrar em sua primeira aventura estrangeira. Apesar dos preparativos e temores para entrar de jipe na Argentina a entrada pela fronteira foi tranqüila, acompanhada de centenas de carros brasileiros que se abastecem diariamente da barata gasolina vendida para a sucateada frota do país vizinho.
O destino eram as missões e, para isso, foi necessário pernoitar em Puerto Rico, uma típica cidade pequena do nordeste da Argentina e com a surpresa de poder aproveitar a experiência de jogar legalmente em um casino.

Missiones San Ignácio

É uma impressionante viagem ao passado percorrer as ruínas de San Ignácio, as mais preservadas missões jesuíticas guaranis.
Fundada em 1610 a missão em San Ignácio surpreende o visitante pelas suas dimensões, imaginar a vida pulsante dessa organização no auge do domínio dos jesuítas encanta e nos remete a uma fantástica história de uma companhia política e não apenas religiosa como se faz supor.
Orientados por um guia que somente fala em castelhano, mas que se faz entender em tudo e que até nos ajuda a entrar no clima do local que estamos tentando desvendar, é possível compreender toda a organização e realidade cultural que construiu uma das histórias mais fascinantes de colonização latina.

Posadas, Encarnación e Pampa Argentino

Passando pelas Missiones de carro é inevitável esticar até a capital do estado de Missiones, Posadas, que fica separada por uma ponte de Encarnación, a segunda maior cidade do Paraguai.
Lá se pode saborear (quem gosta) a parrillada, churrasco de miúdos tradicional na Argentina, tomando uma tradicional cerveja de litro.
Conversar com a população é parte obrigatória de qualquer viagem, e lá pegamos a principal dica da viagem: a passagem pelos Esteros Del Ibera.
Para chegar em Ibera foi necessária uma longa viagem por uma estrada de terra através do Pampa Argentino, uma imensidão reta. Fomos presenteados pelo pôr do sol às 21h10, sem nenhum morro ou formação para impedir a vista maravilhosa de uma bola de fogo se pondo no horizonte, a impressão era que estávamos vendo pôr do sol no mar.

Esteros Del Iberá

Após o fantástico pôr do sol acordamos antes dele nascer em Colônia Carlos Pellegrini, porta de entrada para os Esteros Del Ibera, uma espécie de pantanal Argentino.
Um passeio de barco ao nascer do sol foi revelando a rica fauna da região, onde, a partir de certo ponto o motor é desligado e o barco vai deslizando pela imensidão de água repleta de ilhas suspensas, formadas apenas pelo acumulo de folhas, raízes sobre a água e fezes dos animais e aves.
Jacarés e toda espécie de aves são encontrados com abundância e é simplesmente indescritível a sensação de passar de barco em silêncio ao lado de jacarés de diversos tamanhos. Tivemos a sorte de encontrar cervos e dezenas de capivaras. Descer do bote e pisar nas ilhas flutuantes é outra experiência memorável. Tem-se a impressão de pisar em uma cama elástica, o chão cede conforme pisamos, e é possível chegar muito próximo das capivaras.
O silêncio é impressionante, quebrado apenas pelo canto das dezenas de espécies de pássaros que transformam o passeio numa total integração com a natureza.

Rodando pela Argentina e Rio Grande do Sul

Como dissemos no começo, o meio faz parte da aventura, e a nossa foi rodar e vencer obstáculos mecânicos que foram surgindo, mas que não nos impediram de conhecer as paisagens da esburacada estrada de terra que liga a Colônia Carlos Pellegrini até Mercedes, depois passar por Curuzu Cuatia até chegar na divisa com o Brasil.
Por Paso de Los Libres entramos em Uruguaiana e de lá atravessamos o pampa gaúcho, com destino a Santa Maria, cruzando com milhares de emas que convivem com o gado que domina toda a região.
Depois de Santa Maria seguimos rumo a Cambará do Sul, cruzando assim todo o estado do Rio Grande do Sul.

Aparados da Serra

Cambará do Sul é a parada obrigatória para quem deseja conhecer o Parque Nacional dos Aparados da Serra, na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina.
Lá existe uma grande variedade de pousadas e instalações, ideal para quem deseja pernoitar e visitar as atrações do Parque, que não podem ser vistas em apenas um dia.
Por Cambará do Sul o turista tem a visão de uma planície que repentinamente despenca em até 1.000 metros rumo ao mar. O resultado são canyons que formam paisagens maravilhosas, para sentar-se à beira do precipício e simplesmente ficar admirando.
São vários roteiros a que podem ser percorridos. Um deles é o da vista superior do Itambezinho. Através dessa trilha tem-se a visão de imensos paredões verticais com até 720m de altura além das cachoeiras das Andorinhas e Véu da Noiva.
Outro roteiro impossível de não ser feito é o Canyon Fortaleza. As fendas nas rochas são ainda maiores e essa visão dos abismos nos dá a dimensão exata da nossa pequenez diante da natureza.
Outros dois pontos de parada nessa trilha é a cachoeira do Rio Tigre Preto, com suas águas geladas que despencam no abismo formando uma linda paisagem e a pedra do segredo, uma rocha gigante, apoiada numa base de apenas 50 cm à beira do precipício.
A noite de Cambara do Sul é fria e pela primeira tivemos que sacar das malas nossas blusas. Mas o pecado maior é que a cidade dorme cedo, deixando uma sensação de que seus bares poderiam ir além, servindo os vinhos da próxima Garibaldi.

Voltando por Santa Catarina e Paraná

A volta também reserva paisagens diferentes. Por estrada de terra, passamos por São Joaquim e São José dos Ausentes, as cidades mais frias do Brasil.
A volta é por Lages, Blumenau, Joinville, Curitiba e São Paulo. A Expedição Acauã cumpriu seu objetivo de variar as idas ao centro-oeste do Brasil e a chegada em Ribeirão Preto já é marcada pela vontade de se definir logo o próximo roteiro…

 

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