Expedições Acauã 2009 – Atacama

Confesso que antes da interferência dos Acauãs Edson e Ricardo, a imagem de Cordilheira dos Andes para mim era o gelo branco do filme ‘Alive’, o qual assisti pelo menos umas três vezes. Brasileiro, como todos sabem, pouco conhece de AL. Eu era só mais um ignorante. E esta viagem, o maior desafio do grupo.

As Expedições Acauã começam a preparar suas viagens com quase um ano de antecedência. São meses para a definição de um destino; depois de um roteiro e finalmente ‘os detalhes’, como reza a chacota do ‘cúmulo do perfeccionista’. Claro que nossas reuniões são sempre um bom motivo para um barzinho, cerveja e uma boa comida.

O surpreendente no destino desse ano, porém, era o tamanho do desafio. E um tempo muito escasso. Abortamos um destino (pretendíamos – ou pretensamente incluímos no roteiro –, a Bolívia, com o Salar de Uyuni), mas fomos sensatos o suficiente para concluir que não havia tempo hábil para tanto. Mesmo assim, viajamos 7.300 km em exatos 12 dias. Algo como ir e voltar de São Paulo todos os dias durante quase duas semanas.

A viagem
Partimos de Ribeirão na terça (17), por volta da meia-noite. Dois carros 4×4, seis integrantes, muita bagagem e disposição não menos. Dirigimos até Assunção no Paraguai, como previsto. Entramos no Paraguai por Ciudad Del Leste e aproveitamos para comprar nossas ‘muambas’ (principalmente cartão de memória para as máquinas fotográficas e um item que fez uma grande diferença nessa viagem: um GPS). Por fornecer as informações com voz feminina, apelidamos o GPS de ‘Dirce’ (sempre havia um ‘surdo’ no banco de tráz que perguntava: “o que ela ‘disse”?) De ‘disse’ pra ‘Dirce’ bastou pouco mais de uma latinha…
Em Assunção, voluntariamente, dormimos num velho hotel no Centro da cidade. No dia seguinte, visitamos os pontos básicos de turismo: a Catedral Nossa Senhora da Assunção Santander; o Palácio do Governo impressionam pela beleza arquitetônica, assim como o ‘Panteão dos Heróis’, onde ficam os restos mortais dos heróis e mártires como Solano Lopez.
Em seguida e, no mesmo dia, partimos para a Argentina, cruzando o norte do país por uma estrada (Ruta) recém-inaugurada e, portanto, pouco conhecida: a 81. Até hoje a maioria dos brasileiros que vai para o Chile ainda opta pela estrada da Província do Chaco, mas a Ruta 81 que praticamente estreamos vale muito a pena. Ganha-se em distância e conforto. Dentro da Argentina, a nova estrada vai de Formosa a Jujuy, capital do estado de mesmo nome, sem contratempos. Jujuy (lê-se ‘ruruy’) é uma bela cidade com cerca de 300 habitantes e excelente infraestrutura.

A conquista da Cordilheira

De Jujuy partimos finalmente para a Cordilheira, com destino à cidade de San Pedro do Atacama, Chile. A subida da serra é um misto de deslumbramento e tensão. A geografia é fantástica mas a subida é ingrime, estenuante, como era de se esperar. O impacto da subida é sentida no organismo (pressão nos ouvidos e na cabeça; boca e nariz secos), assim como nos veículos. A falta de ar afeta os pulmões e a octanagem do combustível. Pela serra, é recomendável parar a cada meia hora para que ambos – motorista e veículo – descansem e se adaptem à altitude.

Dos 1200 metros de altitude em Jujuy, atingimos nada menos que 4.835, cerca de 50 quilômetros depois da divisa entre a Argentina e o Chile. É coisa séria. Durante o dia a temperatura é de mais 30 graus. À noite (na volta parecia que éramos os únicos viajantes daquela estrada, já que cruzamos apenas três veículos em quase 300 km rodados), a temperatura ‘raspou’ o zero grau Celsius, cravando 34 fahreinheits.

Ainda na Argentina, o caminho de ida já foi revelando suas belezas e mistérios como o povoado de Purmamarca, o Cerro (colina) das sete cores e a Salina Grande, de onde ‘sacamos’ algumas das mais belas fotos dessa viagem. Andamos com os jipes por sobre o sal. Isso não acontece sempre na vida da gente.

Chegando em San Pedro do Atacama, tivemos que passar pela mais rigorosa das aduanas. Revistaram toda a nossa bagagem, inclusive os galões de combustíveis, enxadão e pá que estavam protegidos com lona sobre o teto do jipe. Burocracia à parte, estávamos no Atacama.

Fizemos a maior parte dos roteiros turísticos existentes na região. O El Tátio – numa área de aproximadamente 10 mil m2 – com seus Geyseres esplendorosos ‘soprando’ água fervendo ou vapor a vários metros de altura; as lagunas altiplanas (piscinas naturais e salgadas); as termas de Puritama; as paisagens lunares e marcianas dos Vales da Lua e da Morte (os turistas praticam se deliciam praticando sandboard) e o Salar do Atacama, razão principal e/ou inicial do nosso interesse por aquela região. O vulcão Licancabur, com seus 5900 metros de altura pode ser visto da estrada chegando em San Pedro do Atacama.

O Vale da Lua, com suas dunas e montanhas foi eleito ‘sem viés’ pelo grupo como o mais belo dos vales. No Salar do Atacama também se encontra a Laguna de Chaxa com seus Flamingos e um balé acrobático de fim de tarde. Um destino insólito, assim como os geyseres de El Tatio.

Existem tipos diferentes de salares. Alguns, ‘desordenados’ como o do Atacama onde o sal parece terra, formando-se em crostas de cerca de 30 cm de altura; os com estruturas hexagonais, com superfícies planas com sal mais branco e seco como da Salina Grande e os de estrutura chamada ‘lisa’, recobertos por uma fina e espelhada manta d’ água. É a natureza fazendo festa, mesmo com um onipresente cheiro de enxofre. Espetáculo, como o céu do Atacama, onde as estrelas ‘seguem’ (ou perseguem?) o horizonte. Na noite do Atacama, enxergamos estrelas já no horizonte, não apenas olhando para cima. Difícil é explicar.

Na noite do Atacama também descobrimos – e participamos, claro, do exótico Carnaval dos Andinos. Três ‘músicos’ (um bumbo, uma sanfona e um triângulo) e uma única canção (não é hipérbole) anima um grupo de pessoas que bebe Pisco (aguardente à base de uva) com Coca-Cola. A diversão se completa com farinha (harina) e vinho. Nos dois primeiros dias do Carnaval, os entusiasmados participantes jogam farinha no rosto uns dos outros (sempre no sexo oposto) e no último dia de Carnaval, a ‘harina’ é substituída por vinho, numa simbologia essencialmente católica e com a qual eles realmente se divertem.

O vilarejo de San Pedro tem quase 500 anos. Suas construções em adobe (barro cru) são monocromáticas e preservadas. No centro da cidade é proibido transitar com veículos. Lojas de roupas, artigos típicos, folhas de coca, bares, restaurantes, casas de câmbio e pousadas são muitas. Agências de viagens também. Uma ‘colada’ à outra, oferecendo passeios a um custo aproximado de R$ 20 a R$ 50 por pessoa, com direito a café da manhã ou lanche da tarde.

Finalmente, o Pacífico

Conhecer o Pacífico era um sonho. Não sabíamos se teríamos tempo. Felizmente, deu certo. De San Pedro partimos pela estrada em linha reta. Passamos pelo vilarejo-fantasma de Pampa Union, ao lado da maior mina de cobre do mundo, a Chuquicamata. Trens ‘transitam’ como automóveis na região e um detalhe é que a lei chilena obriga qualquer motorista, de ‘auto’, claro, a parar – de forma literal – ante um trilho mesmo que não se aviste um trem a centenas de metros… É a lei. ‘Pare’ é pare em qualquer lugar do mundo tenta nos explicar um irredutível carabinero (policial) chileno. Excesso de preciosismo.

Antofagasta, embora não seja uma cidade turística, tem seu charme. A ausência do turismo se dá pela falta de praias naturais para banho. Duas ou três praias são artificiais, fruto da explosão premeditada das rochas na orla e caminhões e caminhões de areia. As ruínas da fundição de prata, um espólio da guerra com a Bolívia que “veio junto com a cidade” e a ‘Portada’, um monumento natural que, inclusive, é símbolo da cidade são outros pontos imperdíveis de visitação. A Portada é uma pedra furada pela ação – e capricho – da natureza em meio a uma praia linda e… deserta. Enormes e multicoloridas, as águas vivas, porém, impedem qualquer intenção de interação do visitante com as águas do mar.

Ali, no entanto, estavam cumpridos os objetivos Acauãs desse Carnaval. Uma última foto em Antofagasta e uma filmagem (outra novidade nas nossas expedições) marcaram aquele momento especial e único. Dali, do meio daquela bela e deserta praia, cada passo que dávamos era um a mais em direção de casa. A Bolívia e o Uyune ficaram pra próxima.

Dicas Úteis:

– O NovoShopping está com a exposição “Una loca geografia”, das Expedições Acauã, com cerca de 80 fotos da viagem, até o próximo dia 15;

– Ao entrar em cada país, não esqueça de declarar seus equipamentos eletrônicos e fazer câmbio (a maioria absoluta dos estabelecimentos – inclusive os pedágios – só aceita moeda local). Raríssimos aceitam cartão internacional (tarjeta);

– Gasolina barata nos países vizinhos é lenda pura. O menor preço que pagamos por litro foi na Argentina. Mesmo assim, mais de R$ 2,00;

– Entre a divisa entre o Chile e a Argentina e San Pedro do Atacama são 160 km de estrada sem um único posto de gasolina ou mesmo barraquinha de fruta. Asfalto, terra e pedra apenas;

– Os modernos GPSs realmente fazem a diferença em viagens como essa. Além da indicação de estradas, muito importante são dicas de postos de combustíveis e hotéis em cidades à beira da rodovia e também de pontos de polícia rodoviária.

– Não se espante com o drama da altitude. De carro e aclimatando-se (uma parada de cinco minutos a cada meia hora) a maioria das pessoas não sentem nenhum efeito, além de secura na garganta, nariz e lábios.

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